Acto público com centenas de pessoas em Lisboa

NATO e guerra <br>rejeitadas nas ruas

Na sexta-feira, dia 8, cen­tenas de pes­soas com­pa­re­ceram na baixa lis­boeta, para par­ti­ci­parem no acto pú­blico con­vo­cado por 26 or­ga­ni­za­ções, as­so­ci­adas na cam­panha «Sim à Paz! Não à NATO!», para marcar com o pro­testo po­pular o início, em Var­sóvia, da 26.ª Ci­meira da Or­ga­ni­zação do Tra­tado do Atlân­tico Norte. Ou­tras ini­ci­a­tivas ti­veram lugar no Porto e em ou­tras ci­dades.

Exige-se o cum­pri­mento da Cons­ti­tuição e da Carta da ONU

O des­file ar­rancou pouco antes das 18h30, na Rua 1.º de De­zembro, junto ao Rossio, onde um carro de som foi dando a ouvir mú­sicas co­nhe­cidas de ou­tros com­bates pela paz, com vozes como Fran­cisco Fa­nhais ou John Lennon, en­quanto os ma­ni­fes­tantes to­mavam nas mãos faixas, ban­deiras e car­tazes, mas também dis­tri­buíam aos tran­seuntes o jornal sobre os mo­tivos da re­a­li­zação deste acto pú­blico e de ou­tras ini­ci­a­tivas, como a subs­crição na­ci­onal do do­cu­mento «As­si­namos pela Paz».

Guerra não!

A su­bida da Rua do Carmo e da Rua Gar­rett, em di­recção à Praça Luís de Ca­mões, foi feita gri­tando pa­la­vras de ordem, como «NATO é agressão, dis­so­lução é so­lução», «Paz sim, NATO não!» – que vá­rias vezes foi mesmo can­tada, num ritmo a fazer lem­brar a Ka­linka do fol­clore russo –, ou «Guerra não!», em con­tra­ponto à afir­mação dos di­reitos à Edu­cação, à Saúde e ao Tra­balho.
Ao palco, ins­ta­lado junto à es­tátua do poeta, su­biram pri­meiro os mú­sicos do grupo Marfa, com gui­tarras e voz sin­to­ni­zadas no tema da jor­nada. As pa­la­vras sobre os mo­tivos do pro­testo cou­beram a di­ri­gentes de quatro das or­ga­ni­za­ções pro­mo­toras.
«A NATO não serve a quem tra­balha e é por isso que os tra­ba­lha­dores e o povo vão con­ti­nuar a exigir a sua dis­so­lução, vão con­ti­nuar a lutar contra o mi­li­ta­rismo e as agres­sões im­pe­ri­a­listas, contra a ex­plo­ração, pelo di­reito ao tra­balho, à paz e à jus­tiça so­cial», disse João Bar­reiros, em re­pre­sen­tação da CGTP-IN, que co­meçou por lem­brar que «os tra­ba­lha­dores são os pri­meiros a so­frer com a guerra».
«A vi­o­lência e as vi­o­la­ções a que as mu­lheres são su­jeitas, nos ter­ri­tó­rios ocu­pados e afec­tados por con­flitos ar­mados, per­pe­tradas pelas forças mi­li­tares ao ser­viço da NATO», foram re­fe­ridas por Re­gina Mar­ques. Esta di­ri­gente do Mo­vi­mento De­mo­crá­tico de Mu­lheres co­mentou «os re­centes com­pro­missos da NATO e da União Eu­ro­peia, no sen­tido de in­cluírem mu­lheres nas suas forças ope­ra­ci­o­nais de se­gu­rança, como chefes de missão e de co­mando», re­a­fir­mando que «mu­lheres e ho­mens ao ser­viço da NATO não são agentes de paz, mas sim exe­cu­tantes de guerra, vi­o­la­dora de vidas e de di­reitos».
Pelo MPPM (Mo­vi­mento pelos Di­reitos do Povo Pa­les­tino e pela Paz no Médio Ori­ente), José Oli­veira co­mentou a anun­ciada aber­tura de uma missão per­ma­nente de Is­rael na sede da NATO, a con­vite desta, re­gis­tando que no dia 8 pas­saram dois anos «do início do brutal ataque de Is­rael a Gaza, que durou 50 dias e em que foram mortos cerca de 1500 civis, mais de 500 dos quais eram cri­anças». «A ver­da­deira na­tu­reza da NATO, be­li­cista e con­trária à li­ber­dade dos povos, é posta a nu pela es­treita co­la­bo­ração com o re­gime si­o­nista», as­si­nalou.
«A guerra não é ine­vi­tável, as forças da paz, a ju­ven­tude, os tra­ba­lha­dores, os povos têm uma pa­lavra a dizer», as­se­verou David Frazer, di­ri­gente da As­so­ci­ação de Es­tu­dantes da Fa­cul­dade de Le­tras da Uni­ver­si­dade de Lisboa, no­tando que os go­ver­nantes que «ca­na­lizam mi­lhões e mi­lhões para a NATO e para a guerra» são «os mesmos que dizem que não há di­nheiro para o acesso uni­versal à Edu­cação e nos fazem pagar pro­pinas, cor­tando nas bolsas e nas nossas pers­pec­tivas de tra­ba­lhar com di­reitos».
Todas as de­cla­ra­ções de res­pon­sá­veis, como o se­cre­tário-geral na NATO ou dos go­vernos dos EUA, da Ale­manha e ou­tros, «vão no sen­tido de que esta ci­meira seja um re­forço do mi­li­ta­rismo na Eu­ropa, como não víamos desde o final da Se­gunda Guerra Mun­dial», alertou Ilda Fi­guei­redo. A pre­si­dente do CPPC (Con­selho Por­tu­guês para a Paz e a Co­o­pe­ração) con­si­derou que «isto é um aten­tado aos povos que querem a paz, que querem ser fe­lizes, e que assim estão a ser im­pe­didos», pois o di­nheiro está a ser ca­na­li­zado para com­prar mais e mais ar­ma­mento, para o ne­gócio das armas, e é re­cu­sado «para a Edu­cação, para os tra­ba­lha­dores, para a Saúde, para res­ponder aos pro­blemas das mu­lheres, da ju­ven­tude e do nosso povo».
Em pra­ti­ca­mente todas as in­ter­ven­ções foi re­a­fir­mada a exi­gência de cum­pri­mento da Cons­ti­tuição da Re­pú­blica Por­tu­guesa e da Carta das Na­ções Unidas, que re­jeitam a in­ge­rência em es­tados so­be­ranos e pro­pugnam a dis­so­lução da NATO, úl­timo dos blocos po­lí­tico-mi­li­tares. Foi lem­brado o drama dos re­fu­gi­ados, e o pú­blico cor­res­pondeu à in­ter­pe­lação de Ilda Fi­guei­redo, con­fir­mando que «em todos os países onde a NATO in­ter­veio, a si­tu­ação ficou pior».

Eu­ropa
Ilda Fi­guei­redo in­formou que o CPPC, como co­or­de­nador do Con­selho Mun­dial da Paz para a Eu­ropa, «está a dar o seu con­tri­buto para que este pro­blema es­teja em de­bate pú­blico, seja co­nhe­cido das po­pu­la­ções». Como ficou de­ci­dido em Al­mada, numa re­cente reu­nião das or­ga­ni­za­ções de países da Eu­ropa que fazem parte do CMP, contra esta ci­meira da NATO e os seus ob­jec­tivos de­cor­reram ac­ti­vi­dades em países como a Re­pú­blica Checa, a Bél­gica, a Grécia, e na pró­pria Po­lónia. Em Var­sóvia, em si­mul­tâneo com a ci­meira mi­li­ta­rista, de­le­gados de or­ga­ni­za­ções in­ter­na­ci­o­nais e de mais de 20 países par­ti­ci­param numa con­fe­rência pro­mo­vida pelo CMP.
 

 

Dia 9 no Porto

Na rua de Santa Ca­ta­rina, no Porto, a cam­panha «Sim à Paz! Não à NATO!» re­a­lizou no sá­bado, dia 9, ao fim da manhã, um acto pú­blico que coin­cidiu com o úl­timo dia da ci­meira da NATO em Var­sóvia e contou com a par­ti­ci­pação de de­zenas de ac­ti­vistas. Num dos pontos mais mo­vi­men­tados da ci­dade, foram dis­tri­buídas al­gumas cen­tenas de jor­nais da cam­panha.
Entre ou­tras breves in­ter­ven­ções, o co­or­de­nador da União dos Sin­di­catos do Porto (CGTP-IN) deu a co­nhecer a moção sobre paz e so­li­da­ri­e­dade, apro­vada no dia an­te­rior no 11.º Con­gresso da USP. Tiago Oli­veira des­tacou que «a guerra e a vi­o­lência não servem os in­te­resses de classe dos tra­ba­lha­dores e do povo».
No final, Ilda Fi­guei­redo, pre­si­dente da di­recção do CPPC, de­nun­ciou in­ge­rên­cias e agres­sões aos povos, na evo­lução re­cente da NATO, des­ta­cando os casos da Líbia, Afe­ga­nistão, Iraque e Síria, e re­a­firmou que a guerra não é ine­vi­tável, com a mo­bi­li­zação dos povos na luta pela paz, tão ne­ces­sária ao de­sen­vol­vi­mento e ao pro­gresso so­cial.

Coimbra
Ac­ti­vistas do mo­vi­mento da paz e das or­ga­ni­za­ções que apoiam a cam­panha pela paz e contra a NATO reu­niram-se na tarde de sexta-feira, na Praça 8 de Maio, na baixa de Coimbra, onde dis­tri­buíram cen­tenas de exem­plares do jornal que aborda os ob­jec­tivos da or­ga­ni­zação mi­litar im­pe­ri­a­lista e, em par­ti­cular, da ci­meira em Var­sóvia.

 

PCP alerta para in­cre­mento be­li­cista

No acto pú­blico de sexta-feira, em Lisboa, es­teve uma de­le­gação do Par­tido, com­posta por Pedro Guer­reiro (do Se­cre­ta­riado do Co­mité Cen­tral), Ana Mes­quita (de­pu­tada à As­sem­bleia da Re­pú­blica), Mi­guel So­ares (membro do Co­mité Cen­tral) e Val­demar Santos (membro da Di­recção da Or­ga­ni­zação Re­gi­onal de Se­túbal).
Horas antes, numa nota di­fun­dida pelo Ga­bi­nete de Im­prensa, o PCP apre­sen­tara uma aná­lise do con­texto em que se es­tava a ini­ciar a Ci­meira, re­a­fir­mando o apelo à par­ti­ci­pação nas ac­ções «Paz Sim! NATO não!». Pu­bli­camos aqui esse do­cu­mento.

Novo e pe­ri­goso pa­tamar

«Ini­ci­ando-se hoje a Ci­meira da NATO, em Var­sóvia, na Po­lónia, o PCP alerta para os seus graves ob­jec­tivos de in­cre­mento da acção be­li­cista deste agres­sivo bloco po­lí­tico-mi­litar con­du­zido pelos EUA.
Nesta Ci­meira, a NATO afirma um novo pa­tamar na sua acção de tensão e con­fronto vi­sando a Fe­de­ração Russa, com os pe­rigos para a paz na Eu­ropa e no mundo que tal acção re­pre­senta.
Agi­tando de novo a pre­tensa “ameaça russa” para ocultar o seu pro­pó­sito ofen­sivo, a NATO re­força a sua pre­sença e acção mi­litar no Leste da Eu­ropa, par­ti­cu­lar­mente na Po­lónia e no Bál­tico. Há 25 anos que a NATO não pára de pro­mover a sua ex­pansão para Leste que, tendo pas­sado pela agressão à Ju­gos­lávia, se apro­xima sempre e cada vez mais das fron­teiras da Fe­de­ração Russa.
Na sequência da sua agressão à Líbia, a NATO re­forçou igual­mente a sua pre­sença e acção no Médio Ori­ente e Norte de África, uti­li­zando, entre ou­tros, o pre­texto do drama dos re­fu­gi­ados, pelo qual é dos pri­meiros res­pon­sá­veis.
A NATO in­cre­menta a sua ca­pa­ci­dade de in­ter­venção mi­litar, pro­move o au­mento das des­pesas mi­li­tares e a cor­rida aos ar­ma­mentos.
Neste quadro, as­sume par­ti­cular gra­vi­dade a ins­ta­lação do sis­tema anti-míssil dos EUA/​NATO na Eu­ropa, sis­tema que acentua o de­se­qui­lí­brio de forças à es­cala global, ge­rando uma acres­cida cor­rida aos ar­ma­mentos.
Na Ci­meira de Var­sóvia será ainda re­a­fir­mada e re­for­çada a co­o­pe­ração da NATO com a União Eu­ro­peia – o seu pilar eu­ropeu – que apontou o re­forço da sua ver­tente mi­li­ta­rista na sua “Es­tra­tégia global eu­ro­peia” re­cen­te­mente adop­tada.
A NATO é um ins­tru­mento de tensão, de de­ses­ta­bi­li­zação, de agressão contra es­tados que, afir­mando e de­fen­dendo a sua so­be­rania e in­de­pen­dência, têm re­pre­sen­tado um factor de con­tenção à im­po­sição do do­mínio he­ge­mó­nico do im­pe­ri­a­lismo, em par­ti­cular do im­pe­ri­a­lismo norte-ame­ri­cano.
Pela sua acção di­recta ou in­di­recta, a NATO é res­pon­sável pelas guerras de agressão contra a Ju­gos­lávia, o Afe­ga­nistão, o Iraque, a Líbia ou a Síria, é res­pon­sável pelas cen­tenas de mi­lhares de mortos e fe­ridos, pela ne­gação da sa­tis­fação das mais bá­sicas ne­ces­si­dades de mi­lhões de seres hu­manos, pelo drama de mi­lhões de re­fu­gi­ados e des­lo­cados, pela co­lossal des­truição que causou.
Guerras de agressão que foram sempre “jus­ti­fi­cadas” através dos mais va­ri­ados e falsos pre­textos, como ficou uma vez mais de­mons­trado pelo inqué­rito re­a­li­zado no Reino Unido re­la­tivo à agressão e in­vasão do Iraque em 2003, que teve um mo­mento em Por­tugal, na Ci­meira das Lajes, aco­lhida por Durão Bar­roso.
In­vo­cando in­fun­dadas “ame­aças”, a cí­nica “luta contra o ter­ro­rismo” ou a pre­tensa “de­fesa dos di­reitos hu­manos” e da “de­mo­cracia”, a NATO é res­pon­sável pelas mais bru­tais vi­o­la­ções dos di­reitos hu­manos, pelo ter­ro­rismo de Es­tado e o apoio a grupos que se ca­rac­te­rizam pela sua acção de terror, pela des­truição de es­tados so­be­ranos, pelo des­res­peito da so­be­rania e von­tade dos povos.
A Ci­meira da NATO re­a­liza-se num mo­mento em que, no quadro do apro­fun­da­mento da crise es­tru­tural do ca­pi­ta­lismo, para além da Eu­ropa, do Médio Ori­ente e África, o im­pe­ri­a­lismo pro­move igual­mente ofen­sivas de­ses­ta­bi­li­za­doras na Amé­rica La­tina e a cres­cente mi­li­ta­ri­zação na Ásia e Pa­cí­fico.
Re­a­fir­mando a sua po­sição e in­ter­venção pela dis­so­lução da NATO e pela con­cre­ti­zação por parte de Por­tugal de uma po­lí­tica de paz, de ami­zade e de co­o­pe­ração com todos os povos do mundo, o PCP as­socia-se à cam­panha “Sim à Paz! Não à NATO” pro­mo­vida pelo mo­vi­mento da Paz em Por­tugal e apela à par­ti­ci­pação nas ac­ções de pro­testo que neste âm­bito se re­a­lizam hoje em Lisboa e amanhã no Porto.»

 



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Prioridades invertidas

No dia 8, sexta-feira, en­quanto a EGF pri­vada im­punha a dis­tri­buição aos ac­ci­o­nistas de mais cinco mi­lhões de euros da Amarsul, ma­ni­fes­tavam-se em Se­túbal mais de 400 tra­ba­lha­dores, eleitos lo­cais e ou­tros mo­ra­dores, em de­fesa da gestão pú­blica do sis­tema de tra­ta­mento dos re­sí­duos só­lidos.